O que uma coleção pode dizer sobre a intimidade de um estilista?

Investigamos o passado e o presente de cindo designers para entendermos as suas memórias, angústias e vontades mais íntimas. Spoiler: O senso da humanidade sempre vence

Há muitos não-dizeres a serem decifrados em um desfile de moda. Além das informações protocolares sobre inspiração e referências, costumeiramente divulgadas à imprensa, concluir com precisão o sentido das mensagens transmitidas não é uma tarefa fácil. Para muitos, tal prática se assemelha a um jogo de adivinhação. Ou melhor, a um quebra-cabeça com peças que nunca parecem se completar.

Porém, diferentemente desses passatempos, a moda não é apenas sobre o raciocínio lógico. O recurso, claro, tem o seu devido valor na equação, mas a sua compreensão vai além de uma mera premissa racional. Ainda que cheia de subjetividades, a análise contínua do trabalho criativo, aliada ao conhecimento da trajetória de vida de cada estilista, é capaz de dar sentido às entrelinhas e apontar caminhos mais humanos.

Aqui, investigamos o passado e o presente daqueles que têm a coragem de colocar em jogo as suas ideias, memórias e sentimentos mais íntimos – que, por mais individuais que possam parecer, encontram novos canais para fluir em coletividade.

Mark Jobs

Marc Jacobs tinha apenas 29 anos quando, em 1992, apresentou a tão controversa Grunge Collection. Na época, à frente da direção criativa da Perry Ellis, o nova-iorquino se adiantou. Enquanto a moda ainda estava tomada pelo exagero plástico dos anos 1980, Marc olhou para os novos movimentos da juventude, construindo uma estética semelhante à das roupas de segunda mão, já muito adotada pelas subculturas. Se hoje referenciar as ruas parece um caminho natural, lá atrás não era bem assim.

“O desleixo nunca foi tão autoconsciente ou custou tão caro”, escreveu a jornalista Cathy Horyn em sua resenha para o Washington Post. Trish Donnelly, do jornal San Francisco Chronicle, foi ainda mais dura: “Quem for escravo da moda o suficiente para se apaixonar por isso merece o visual indigente pelo qual está pagando”. Essas foram apenas algumas das tantas críticas feitas ao desfile, que acabaram resultando na demissão do estilista. Para muitos, esse poderia ser o início do fim, mas essa possibilidade, definitivamente, nunca esteve entre as opções de Marc Jacobs.

A infância do estilista não foi das mais tranquilas. Após perder o pai, aos 7 anos, Marc ficou sob os cuidados da mãe. Ela, no entanto, sofria de transtorno de bipolaridade, não seguia os tratamentos corretamente e, muitas vezes, precisou ser internada às pressas. “Vi coisas que nenhuma criança deveria ver”, revelou em entrevista ao The New York Times. Mesmo entre os traumas de uma família disfuncional, ele precisou assumir a responsabilidade dos seus dois irmãos mais novos e buscar forças do além para se manter são. Esse último detalhe, claro, não era fácil, mas Marc tinha um segredo: no pouco tempo que lhe sobrava, trancava-se no quarto para criar as suas próprias realidades alternativas.

“Eu me protegia desenhando, colocando bobs no meu cabelo, inventando a minha persona. No meu quarto, estava a salvo do caos e criava a vida que queria ter”, relembra, em conversa com o Fashionography. Pouco tempo depois, o nova-iorquino conseguiu se afastar dessa realidade e se aproximar da avó paterna, com quem foi morar. A partir daí, sua vida passou a ser outra. A vovó Helen, como costuma chamá-la, era das mais corujas e, como uma figura essencial para a criação de Marc, apoiou o seu amor pela moda e espalhava pelo bairro que, um dia, o seu neto seria um designer famoso.

A vovó Helen estava certa. Após a fatídica demissão da Perry Ellis, o nova-iorquino se reergueu com beleza e inventividade, como aprendeu ao longo de toda a sua juventude. Lançou sua marca homônima, se tornou um dos grandes nomes de sua geração e, de quebra, teve uma passagem de 16 anos pela direção criativa da Louis Vuitton. Ao longo da jornada, existiram altos e baixos. Entre crises, ora criativas, ora financeiras, vimos Marc se reerguendo tantas outras vezes.

Uma crítica ainda constante ao seu trabalho é de que, supostamente, o estilista não teria uma assinatura. Mas é simples: ele é o fio condutor de suas próprias coleções. Para constatar isso, basta observar as suas entrevistas. Quando perguntado sobre moda, Marc cita pessoas amadas. Se o questionamento é sobre a indústria estadunidense, ele relembra as noitadas nas suas boates favoritas. Quando o assunto é tapete vermelho, reafirma como ama a Cher.

Não é difícil imaginar as razões para a sua obsessão por memórias e o seu fascínio por suas diferentes versões, que encontram refúgio na passarela. “A força motora dos meus dias é o medo. Sempre sinto que alguém irá tirar algo de mim ou que eu mesmo irei me perder. Foi com isso que sempre vivi”, contou ao The New York Times. Os traumas de infância seguem entre suas memórias mais íntimas e ainda dividem espaço com as crises da vida madura.

Seja lá quantas vezes Marc Jacobs tenha que se reerguer, que ele esteja sempre em cima de suas plataformas favoritas, com o seu colar de pérolas no pescoço e unhas devidamente pintadas. Até porque, como o próprio diz: “Se você não gosta do meu visual, vá se foder. Espere até me ver amanhã”.

Miuccia Prada

“Não declaro a minha opinião política porque na moda, e principalmente nos negócios de luxo, é melhor calar a boca”, afirmou Miuccia Prada em entrevista à Vanity Fair. Como quem não pudesse evitar, no entanto, algumas poucas perguntas depois, a italiana já hesitava: “Essa coleção é um símbolo de amor aos rejeitados, às pessoas que enfrentam dificuldades e precisam da nossa atenção”, disse sobre o inverno 2019 da marca.

Essa parece ser uma luta interna sem prazo de validade da designer. Crescendo em meio a viagens pela Inglaterra, França e Irlanda, Miuccia se formou em ciências políticas e passou um bom tempo estudando mímica (sim, mímica!) até ingressar no Partido Comunista Italiano. “Todo jovem vagamente inteligente era esquerdista, então não era como se eu fosse tão especial”, diz ela. O seu interesse político passou a dividir espaço com a moda. Mesmo querendo lutar contra, já que esse, supostamente, não seria o melho lugar para uma feminista dos anos 1960, o chamado se tornou forte demais para ser ignorado.

“No início da minha carreira, ninguém gostava de mim”, relembra a italiana em entrevista ao Document Journal. Evocando provocações cerebrais e muitas vezes com uma boa dose de ironia, Miuccia já foi muito incompreendida. Para os vanguardistas, as suas primeiras coleções não pareciam inovadoras o suficiente e, para os clássicos, havia algo perturbador além da conta. Mas, para ela, a atração da moda está exatamente aí: “Gosto de me mover nesse espaço e nunca agradar a ninguém”.

Miuccia sempre foi essa pessoa. Vinha de uma família burguesa, mas ocupava o campo político de esquerda. Ocupava o campo político de esquerda, mas gostava de moda. Gostava de moda, mas usava roupas da sessão infantil só para não se misturar à multidão. Ao longo da juventude, a contradição foi uma parte fundamental da vida pessoal da italiana e, mais tarde, se tornaria parte do seu trabalho. O feio e o bonito, o velho e o novo, o essencial e o luxuoso: essas são só algumas das discordâncias constantes investigadas em suas coleções.

“A minha vida foi uma completa contradição. Eu sou uma contradição viva. Às vezes, digo ‘vamos promover a complexidade’, porque a Prada não é clara sobre o que é. Você não consegue reduzir a Prada a algo simples. Se a vida não é simples, então porque simplificar uma marca?”, questiona.

Com mais de 40 anos de carreira, a estilista segue sem soluções para muitas de suas crises internas, assim como a maioria de nós. E é aí que está: apesar das suas raras entrevistas ou aparições, Miuccia Prada se mostra humana nas passarelas, expondo em roupas as suas complexidades, camadas e contradições mais íntimas – e, no fim do dia, não é justamente disso que todos nós também somos feitos?

Marine Serre

O ano era 2018. Nem nos nossos piores pesadelos imaginávamos que a Covid-19 estaria por vir. Marine Serre, no entanto, já colocava máscaras em suas modelos. “Não há nada de novo. Nosso mundo já estava ameaçado”, afirmou em entrevista à AnOther Magazine, no ano passado. “Você quer andar de bicicleta na rua? Se não usar uma máscara, honestamente, terá problemas com a poluição.” Em poucos anos de carreira, a francesa se mostra como uma daquelas figuras com habilidade atípica para identificar o clima de uma época e dar vida ao que ninguém ainda está enxergando. Figuras como essa, aliás, não aparecem a todo momento.

Marine Serre tinha planos de vida bem distantes da moda. Desde a infância, e apaixonada por esportes, a jovem encarava o tênis de maneira profissional, competindo em torneios mundiais e imaginando ali o seu futuro. Tudo mudou quando, aos 18 anos, sofreu um acidente de carro e se viu impedida de praticar a atividade. É nesse limbo do sonho destruído e da sensação constante de incompletude que ela se aproxima da moda. A partir daí, tudo se desenrolou depressa: ingressou na faculdade La Cambre e em seguida conseguiu um estágio na Dior, depois outro na Maison Margiela e, por fim, um cargo de designer júnior na Balenciaga.

Entre esses passos, em 2017 ela foi selecionada para a premiação do grupo LVMH por sua coleção de graduação. Surpreendendo um júri de peso, que incluía Karl Lagerfeld, Phoebe Philo e Nicolas Ghesquière, Marine foi a grande vencedora, investindo o dinheiro do prêmio no lançamento oficial de sua marca homônima. Desde então, a francesa passou a ser considerada um dos nomes mais interessantes de sua geração e, aos 29 anos, é a favorita das celebridades graças à sua famosa estampa de luas crescentes. Esta, aliás, se tornou o seu monograma: “Não queria que fosse as minhas iniciais, pois acho totalmente estúpido”.

Carregando ainda o fardo de ter um sonho de infância destruído, Marine faz claras referências atléticas em suas coleções, com seus bodysuits, com suas camadas protetivas ou com o zelo pelo movimento. “Quero proteger o corpo. Ele é a nossa máquina mais importante”, diz ela. Essa estética, no entanto, não é criada da forma mais óbvia. Tendo em mente cenários apocalípticos, a francesa parte da imagem de guerras climáticas, civilizações ferozes e extinções em massa.

“Não sou pessimista. Sou apenas uma realista tentando encontrar soluções para os sobreviventes.” Mesmo com suas explicações, há quem siga considerando isso violento. No entanto, a sua inquietação é a mesma de uma geração inteira que, em meio ao caos, também se enxerga à beira de um precipício social, político e mental.

Kerby Jean-Raymond

Poucas semanas após apresentar sua coleção de verão 2016, Kerby Jean-Raymond enviou uma carta à sua equipe para comunicar que a Pyer Moss seria encerrada. Ele estava sendo ameaçado de morte por movimentos supremacistas brancos, havia perdido os seus maiores compradores, acarretando um prejuízo de 120 mil dólares, e estava sendo detonado pela crítica de moda. A coleção em questão falava sobre a brutalidade policial e, após as reações racistas, em questão de dias o estilista entrou em um estágio de tristeza profunda. “Percebi que não tinha ninguém, me senti sozinho. Estava deprimido, mas não cresci com o privilégio de identificar isso”, relatou em entrevista ao site Surface.

Filho de imigrantes haitianos, Kerby teve uma infância e adolescência violentas. A sua mãe faleceu quando ele tinha apenas 7 anos, em uma viagem ao Haiti. A família, no entanto, preferiu não contar a notícia para o menino e, ao longo de três anos, ele falava com a sua tia por telefone, acreditando ser a mãe. Já o seu pai, com quem morava no Brooklyn, Nova York, e mantinha uma relação conturbada, trabalhava como motorista de táxi e eletricista, instalando caixas de cabos ilegais na casa de “todos os traficantes locais”.

Mesmo que a sua história apontasse para caminhos contrários, Kerby fugiu de todas as estatísticas. Aos 12, decidiu que seria designer de moda, quando se apaixonou pelo Nike Air Worm, a peça assinada pelo jogador de basquete Dennis Rodman. No ano seguinte, conseguiu o seu primeiro emprego na rede de tênis Ragga Muffin – para isso, aliás, precisou falsificar documentos, já que a idade legal para o trabalho era a partir dos 14. A partir daí, não parou mais e, até chegar a janeiro de 2013, quando lançou oficialmente a Pyer Moss, o haitiano-americano rodou bastante.

“Levei 18 anos para me tornar ‘um sucesso da noite para o dia’”, ironizou em entrevista à CNN. Os últimos anos têm sido especiais para ele, mas, até chegar aqui, pensou em desistir algumas vezes. Após o fatídico episódio do desfile de verão 2016, quem o levantou e fez com que esquecesse essa ideia foi a cantora e compositora Erykah Badu. “Ela me disse: ‘Use o que você tem, querido. Esse lugar é seu’”, relembra.

E é mesmo. Desde então, o estilista segue provocando a indústria da moda com o seu espírito contestador. Um de seus desfiles mais íntimos foi o de inverno 2017. Em uma homenagem ao seu pai, a coleção, chamada My Father as I Remember, foi como um encontro entre o ativismo e o afeto, resultando em uma conversa necessária sobre imigração, perdão, reconexão e reconhecimento.

Cada uma das conquistas de Kerby Jean-Raymond equivale a uma reformulação na indústria da moda – não por ele se adequar às regras impostas por homens brancos, mas por ignorá-las frequentemente, confiar em seus instintos e abrir um longo caminho para que toda a comunidade negra prospere.

Rei Kawakubo

Rei Kawakubo é, talvez, a estilista mais difícil de ser decifrada intimamente. A fundadora e diretora criativa da Comme des Garçons não participa de eventos e premiações, não coleciona amizades com celebridades e não tem o hábito de aparecer ao fim dos desfiles. Entrevistas são raras e, entre as poucas existentes, as suas falas são pragmáticas e diretas. “O meu estilo é Comme des Garçons”, disse Rei sobre o seu modo de se vestir em conversa com a Deezen.

Na maioria das entrevistas, aliás, as respostas não diferem muito disso. Se a estilista japonesa puder resumir a sua fala a apenas “Comme des Garçons”, ela certamente o fará. Por mais irritante que possa parecer, Rei gosta de perturbar – no melhor sentido da palavra. Para ela, o mistério faz parte do jogo, e é olhando com indiferença para o raciocínio convencional e desprezando convenções de gosto que, aos 78 anos, ela lidera silenciosamente uma empresa tão complexa quanto qualquer roupa criada em seu ateliê.

Nascida em Tóquio, a designer lançou a sua marca aos 31 anos, sem nunca antes ter experimentado estudos formais de moda. “Consegui por acidente um emprego em uma fábrica têxtil e, depois que saí de lá, montei a minha empresa. A única coisa da qual eu me recordo é querer ser independente, montar um negócio e trabalhar”, relembra. Uma década depois, já havia mais de 100 lojas espalhadas pelo Japão e o seu nome ecoava ao redor de todo o globo. “Nunca tive a intenção de iniciar uma revolução. Acontece que a minha noção era diferente da de todo mundo”, afirmou.

Entre coleções cerebrais e parcerias lucrativas, a ideia de normalidade é algo que a apavora. “Por 50 anos, tudo que tenho feito é procurar alguma coisa nova. Eu sempre começo do zero, tentando fazer algo que não exista. Acho que ninguém mais trabalha assim”, diz. No entanto, sem grandes detalhes sobre as referências de suas coleções, nem mesmo hoje, entre tempos de hiperconectividade e superacesso à informação, Rei dá o braço a torcer. O fato de que, por algum tempo, a japonesa experimentou não colocar espelhos em suas lojas já nos diz muito sobre as suas ideias íntimas de não-imagem.

Em um nível quase visceral, há algo maravilhoso sobre uma estilista feminina que não tem escrúpulos em cumprir o objetivo de se levar absolutamente a sério. Quando perguntada sobre o que a faz rir, durante um perfil realizado pela revista The New Yorker, em 2005, ela respondeu sem esboçar um mínimo sorriso: “Pessoas caindo”. No fim das contas, Rei Kawakubo é também a lembrança de que, no dia que encontrarmos a última peça desse quebra-cabeça que é a compreensão da moda, nenhum de nós terá algo a dizer.

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