Ameaça real: forças russas se dirigem para o “país mais feliz do mundo”

Finlândia mudou de posição depois da invasão da Ucrânia e pode entrar para a Otan ainda este ano, razão das novas manobras de intimidação de Moscou

Aurora boreal, renas, saunas e um frio tão grande que a temperatura média é de 14 graus – no verão. Geralmente são lugares comuns assim que vêm à cabeça quando a Finlândia é mencionada. Para quem gosta de acompanhar indicadores altamente discutíveis, o país nórdico também tem levado, há cinco anos, o título de mais feliz do mundo.

A ideia de que todos os principais problemas da humanidade foram resolvidos da melhor maneira possível na Finlândia tem sido consistentemente demolida desde que a Rússia primeiro cercou e depois invadiu a Ucrânia, numa demonstração assustadora de que nenhum vizinho que já tenha sido parte da esfera russa de influência pode ficar tranquilo. 

O realinhamento de países europeus como a Finlândia e a Suécia, que não fazem parte da Otan, a aliança militar que abriga a maioria da Europa sob o guarda-chuva nuclear americano, foi apontado muitas vezes como uma das consequências indesejadas desencadeadas por Vladimir Putin.

Os dois países nórdicos podem entrar para a Otan ainda este ano, rompendo uma postura de muitas décadas de neutralidade, voluntária ou implicitamente exigida, como no caso da Finlândia, constrangida desde os tempos da União Soviética a ficar na sua. 

Com apenas 5,5 milhões de habitantes e 1 340 quilômetros de fronteira com a Rússia, o maior país do mundo, a neutralidade da Finlândia era uma questão de autopreservação. Agora, o mesmo impulso leva o país a procurar a proteção da aliança e seu artigo 5, o que estabelece que um ataque contra um membro da Otan tem que ser respondido por todos seus 30 países membros.

A opinião pública acompanhou esta guinada. Antes da invasão da Ucrânia, apenas 25% dos finlandeses apoiava a adesão. Agora, são 84%. É possível que aumente mais ainda depois das cenas flagradas ontem, de baterias de mísseis montadas em caminhões gigantescos se dirigindo, do lado russo, para a estrada que leva a Helsinque.

O deslocamento aconteceu depois que o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, avisou lugubremente que a expansão da Otan “não traz estabilidade para o continente europeu”.  O deputado Vladimir Dzhabarov, agente aposentado como general dos serviços de espionagem (primeiro KGB, depois FSB), apelou à virulência extrema que virou lugar comum entre a elite dirigente russa e disse que a decisão da Finlândia significaria “a destruição do país”.

A placidez da Finlândia, um país que reproduz debaixo da terra as estruturas que existem acima dela, tanto para se abrigar do frio quanto de eventuais bombardeios, esconde uma história conturbada, dividida entre vizinhos mais poderosos, a Suécia e a Rússia, com constantes tentativas de russificação e uma proximidade tóxica com São Petersburgo (onde fica a Estação Finlândia na qual Lênin desembarcou, vindo do exílio, em abril de 1917).

Depois da independência, produto da derrocada do regime imperial russo, comunistas e anticomunistas travaram uma guerra civil com atrocidades mútuas. Os “brancos” ganharam e o país construiu uma democracia exemplar, baseada numa sociedade com laços sólidos de solidariedade – a viga mestra que permitiu a resistência quando a União Soviética stalinista depois de tomar metade da Polônia, invadiu a Finlândia em novembro de 1939.

Como acontece agora com a Ucrânia, a inesperada capacidade de resistir a um exército superior espantou o mundo. Foi nessa Guerra do Inverno que finlandeses inventaram o coquetel Molotov, uma ironia com o ministro das Relações Exteriores, Viacheslav Molotov. Com cinismo clássico, ele dizia que os aviões que bombardeavam a Finlândia estavam na verdade levando alimentos para a população necessitada. O “coquetel” era para acompanhar a comida.

A Finlândia conseguiu garantir a independência, embora tenha sido obrigada a ceder territórios fronteiriços. Cedeu também à tentação de se aliar aos nazistas quando a Alemanha invadiu a União Soviética. Custou caro quando o Exército Vermelho virou o jogo. A certa altura, no fim da guerra, a Finlândia combatia simultaneamente alemães e russos. Com a derrota nazista, a neutralidade imposta por Moscou foi o preço da sobrevivência.

Agora, tanto para a Finlândia quanto para a Suécia, ficou impossível manter essa política. Quem não se protege, fica em posição mais arriscada ainda do que a de provocar a ira russa. A primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, do Partido Social-Democrata, a centro-esquerda que sempre resistiu à Otan, disse que o ingresso na aliança atlântica será aprovado até o verão no hemisfério norte.

Aos 34 anos, ela é apontada como um dos exemplos que fazem da Finlândia um dos países mais igualitários do mundo, combinando o capitalismo que gera uma renda per capita de quase 50 mil dólares com um estado de bem-estar social no padrão nórdico.

Muitos discordam da classificação da Finlândia como país mais feliz do mundo, apontando características nacionais como a introspecção e a incomunicabilidade – sem contar os invernos – como fatores que geram um índice de suicídio de 13,4 casos por 100 mil habitantes (6,4 no Brasil).

Real ou artificialmente construído, o índice nacional de felicidade da Finlândia está passando por um teste. Por conhecer profundamente o vizinho, a Finlândia tem abrigos antiaéreos obrigatórios e faz estoques estratégicos de alimentos e combustível para pelo menos seis meses. Um terço da população adulta fez serviço militar e a doutrina da “defesa total”, envolvendo todos os setores da sociedade, como acontece agora na Ucrânia, faz parte integrante do sistema nacional.

“Estamos treinando para esta situação desde a II Guerra Mundial”, disse em março a ministra para a União Europeia, Titty Tuppurainem. “Não fomos pegos de surpresa”.

Otimista na ação e pessimista no pensamento não foi só uma frase de efeito daquele cara da Estação Finlândia.

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